domingo, 23 de outubro de 2011

A Arquivística e a Ciência da Informação: um diálogo possível?

Há exatamente um ano, estava na Espanha, em Zaragoza, apresentando um trabalho no XV Ibersid (Encuentros Internacionales sobre Sistemas de Información y Documentación),  intitulado: “Ciência da Informação e Arquivística: um diálogo possível a partir da informação registrada”, fruto de algumas reflexões sobre a inserção da Arquivística no âmbito das disciplinas que compõem a Ciência da Informação (CI), e achei que seria interessante discutir aqui essa relação (aproveitando o boom de visitas que o blog recebeu, em decorrência do último post). 

No Brasil, na estrutura das agências de fomento à pesquisa a Ciência da Informação está inserida nas chamadas “Ciências Sociais Aplicadas”, englobando a Arquivística, a Biblioteconomia e a Museologia, denominadas por Smit (1993) como “as três Marias”.

Essa visão coloca a CI como uma grande área, uma disciplina científica que rege as práticas arquivísticas, biblioteconômicas e museológicas, cujo objetivo é garantir que a informação registrada e institucionalizada possa ser acessada e disseminada de maneira rápida e eficaz.

Neste contexto, a Arquivística e as outras disciplinas citadas, emergem como práticas de uma ciência maior. A CI propõe um objetivo: estudar os processos de produção, organização e uso da informação, enquanto que as outras disciplinas colocam em prática esses processos. Como bem destacou Guimarães (2008, p. 33)
 [...] há de se ter em conta que a Ciência da Informação, enquanto área de estudos encontra fulcro em um conjunto de práticas que, no decorrer, ao longo do tempo, foram se consolidando, no mais das vezes ligadas a fazeres específicos contextualizados em ambiências específicas.

Especificamente no campo arquivístico, essa visão é ainda muito discutida. Enquanto que em alguns países, como França e Itália, os cursos de Biblioteconomia estão seguramente inseridos nos departamentos de Ciência da Informação, os cursos de Arquivística estão inseridos em departamentos de História nas Universidades, ou até mesmo em Arquivos Históricos (como já foi discutido neste blog, em postagens anteriores).

Não é raro, ainda, encontramos os famosos teóricos da Arquivística Contemporânea, definindo a CI como uma área da tecnologia, como é o caso de Luciana Duranti. Quando estudei as abordagens que emergiram no Canadá nos anos 1980 e constituem hoje o supra-sumo da Arquivística contemporânea, pude observar que, embora todas as abordagens trabalhem com o conceito de informação orgânica, apenas a Arquivística Integrada se vê inserida em uma área maior, no caso a CI.  Isso demonstra uma carência dos estudos relativos à informação enquanto objeto da Arquivística. 

A realidade brasileira deveria constituir uma exceção. Digo isso porque no Brasil, embora os cursos de Arquivística estejam inseridos majoritariamente nos departamentos de Ciência da Informação nas Universidades, demonstrando uma tentativa em aproximar disciplinas relacionadas, a interdisciplinaridade raramente ocorre. 

No texto que apresentei no Ibersid, eu disse que a realidade brasileira era uma exceção, mas hoje vejo que não é bem assim. O maior exemplo dessa não-integração é a intenção de criar um Mestrado na área de Arquivologia que, hoje, é apresentada como uma sub-área nos Programas de Pós-Graduação em CI.

A Arquivística é uma disciplina relativamente nova e baseada fundamentalmente na prática, mas que pode encontrar na Ciência da Informação – especificamente no cenário brasileiro um espaço científico capaz de fundamentar a produção, a organização e o uso da informação orgânica registrada. No entanto, acredito que esse diálogo só será possível a partir do momento em que identificarmos a informação orgânica registrada como o objeto da Arquivística, não esquecendo, porém, que essa informação deve ser tangível e passível de organização (information-as-a-thing, como definiu Buckland).

Dessa forma documento/informação devem estar sempre associados uma vez que a informação deve ser registrada em um suporte, para que possa ser processada, organizada e utilizada (processos nucleares da CI). 

Acredito, sinceramente, que a realidade arquivística brasileira é privilegiada por estabelecer essa relação com a Ciência da Informação e que, se soubermos aproveitar essa interdisciplinaridade, poderemos avançar muito nos campos teórico e metodológico, uma vez que a Arquivística, sozinha dificilmente fará verão. Ainda temos muito que aprender, e a Ciência da Informação muito a nos ensinar então, porque não aproveitar?

Referências:

GUIMARÃES, José Augusto Chaves. Ciência da Informação, arquivologia e biblioteconomia: em busca do necessário diálogo entre o universo teórico e os fazes profissionais. In: GUIMARÃES, J.A.C; FUJITA, M.S.L. (org.). Ensino e pesquisa em biblioteconomia no Brasil: a emergência de um novo olhar. Marília: Cultura Acadêmica e Fundepe, 2008. 33-43.

TOGNOLI, Natália Bolfarini ; GUIMARÃES, José Augusto Chaves . Ciencia de la Información y Archivística: un dialogo a partir del concepto de información registrada. In: GARCIA MARCO, Francisco Javier. (Org.). Revista de Sistemas de Información y Documentación. Zaragoza: Prensas Universitarias de Zaragoza, 2010, v. , p. 131-136.

SMIT, Johanna W. O documento audiovisual ou a proximidade entre as três Marias. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, 26, 1, 1993, 81-85.

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